Convivendo com a ansiedade

A ansiedade sempre está presente nas nossas vidas quando algo novo vai acontecer; seja uma viagem, primeiro dia de aula, primeiro dia de emprego, entrevista, aguardando as férias… Sempre um friozinho na barriga nos toma conta, junto com uma inquietação e não vemos a hora de tal acontecimento chegar.  Ela é normal para todos, faz parte da vida.

O problema é quando ela se torna algo insuportável e a sensação de que algo ruim vai acontecer com você a todo momento, sufoca. Ela aparece perante a qualquer mudança ou sem nenhum motivo aparente, do nada. No meio da estação do metrô, no ponto de ônibus e até mesmo em casa, dias antes de uma prova, pouco antes de uma atividade que não está na rotina.

Quando percebi que não estava bem, já não conseguia mais controlar meus pensamentos e quando tentava, mais coisas ruins apareciam. Neguei minha ansiedade durante anos. Mas sempre escutava coisas do tipo “PARA DE SER LOUCA/ PARANOICA”. Esperava sempre pelo pior, não conseguia aguardar até o dia em que algo ia acontecer sem me desesperar, passando noites sem dormir.

Atividades que me deixavam feliz começaram a me dar medo. Muito medo. Quando fui viajar pela segunda vez fui tomada por pensamentos de que algo ruim poderia acontecer, algum acidente, algo que me marcaria e que faria mal as pessoas que eu amo. Analisando bem, essa ansiedade foi tomando proporções tão grandes que as crises foram aparecendo mais e mais vezes até serem constantes.

Aos 8 anos tive minha primeira crise de pânico. Tudo começou com uma confusão, uma garota da sala brigou com uma das minhas amigas e colocou seu brinquedo na bolsa de minha amiga, e eu vi. Ela foi contar para a professora e aí começaram as buscas. Quando me deparei com aquela injustiça, soltei a verdade sem pensar nas consequências.

Apanhei diversas vezes, fui xingada várias vezes e perdi total interesse de ir a escola. Eu não tinha feito nada de errado, e quando minhas mentiras para faltar não estavam mais dando certo, uma sensação horrível tomou conta de mim e me desesperei. Fui parar no hospital. O médico disse que estava com arritmia cardíaca, encaminhou-me ao cardio e meus exames estavam normais. Ninguém desconfiou de nada, como meus pais imaginariam que uma criança poderia ter esse tipo de transtorno?

Repeti essa crises umas duas vezes no mesmo ano, até que meu pediatra da época me receitou um calmante e minha mãe ficou muito brava com ele. Não era pra ele me passar remédio e sim me encaminhar para um psicólogo (na época, precisava de um encaminhamento para passar em consulta pelo convênio, principalmente com psicólogos).

O tempo foi passando e eu só tinha esse desespero forte quando algo muito sério ia acontecer. Tipo todas as vezes que minha mãe ou meu pai ia fazer alguma cirurgia. Até que, com 12 anos, voltei a sentir com mais frequência, graças a escola. Comecei a ser zoada por algumas características e mais uma vez tive uma crise de pânico. Fui ao hospital e… ARRITMIA CARDÍACA. Dessa vez só fizeram eletro male male na hora e pronto.

Fui pegando medo das pessoas e pavor de ir a escola até que no nono ano eu mal conseguia ir. Aquilo era uma tortura pra mim, quando chegava domingo a noite meu coração acelerava a ponto de sair pela boca, mas era arritmia, né?! Acordei no meio da noite sem consegui respirar, desesperada, suando. Fui levada ao hospital e mais uma vez “arritmia cardíaca”.

Acabei fazendo poucas amizades e sendo a introvertida da sala. O que gerou mais bullying e as crises foram ficando menos intensas, porém aconteciam com mais frequência. O ensino médio finalmente acabou e consegui um emprego, e mais crises. Só que, minha mãe mais uma vez tentou me convencer a me consultar com um psicólogo e a resposta era sempre a mesma: eu não sou louca!

A faculdade bateu a minha porta e aí sim, surtei. Tenho medo de ir. Medo de cair nos trilhos do Metrô, medo de ser atropelada quando descer do ônibus, medo de me perder em SP, medo de ser roupada, medo de tudo que se pode acontecer com qualquer pessoa e que se intensifica com o fato de ser mulher.

Meu antepenúltimo ataque de pânico aconteceu em março. Comecei uns três dias antes a sentir ânsia quando ia dormir e quando acordava, tremores, tontura, palpitações também acompanhava e, no dia da crise, muita falta de ar, suava e não conseguia ficar parada. Parecia que algo horrível estava para acontecer mas eu não sabia identificar. Demorou tanto para melhorar que passei uma noite inteira sem dormir, a sensação não passou, melhorava um pouco e voltava.

Não sei o que é pior, o medo dessa sensação voltar ou a própria sensação em si. Você não tem controle sobre seus sentimento, seu corpo e o que mais escuta é SE CONTROLA, de uma maneira bem rude. Não dá pra controlar, muita gente age como se fosse frescura.

Meu maior medo é ter uma crise intensa no meio da rua e não ter meus pais para conseguir me acalmar. Eles conseguem me acalmar pois sabem os exercícios de respiração que minha psicóloga me passou e eles me transmitem de certa forma, calma. Aconteceu uma vez de estar no Metrô e não conseguir focar, parecia que ninguém me via, um pesadelo horrível e as vozes tomaram conta de mim e a única coisa que consegui fazer foi encostar na parede, sentar e colocar minha cabela entre as pernas, respirando do jeito que aprendi.

Toda vez que me sinto assim, tento me encostar em algo, fechar os olhos e respirar fundo. Fechar os olhos parece desesperador no primeiro momento, por isso me apoio em algo. Depois da quarta ou quinta respirada as coisas começam a voltar a fazer sentido e tudo vai melhorando aos poucos. Quando passa, fica aquele sentimento ruim de que você não é capaz, de que isso vai voltar e você não pode mudar.

Não preciso tomar remédio, conversei com minha psicóloga e disse que ainda não é a hora, espero conseguir melhorar com a terapia. Sempre que pensou ou vou sair de casa é uma luta para mim, mas uma luta que tento vencer todos os dias. Se você perceber que, de alguma forma, não tem controle sobre suas emoções, pensamentos ou apenas sente que algo está errado, procure ajuda.

Não é vergonhoso ter um problema. É importante buscar ajuda quando não consegue mais manter o controle sozinho. A ansiedade não é frescura, ela existe e precisa ser controlada para bem-estar individual.

 

Viviane Aguiar

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